Saúde mental é tema de campanha em escolas de Cachoeira

Encontro discutiu sofrimento psíquico, juventude e convivência – Foto: Divulgação/ Prefeitura de Cachoeira

 

 

A comunidade educacional de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, encerrou as atividades da 9ª Campanha Setembro Amarelo – Saúde Mental e Ética no Cotidiano com um encontro no auditório do Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). A iniciativa é vinculada ao projeto ELO.UFRB, coordenado pelo professor Antônio Mateus Soares, e contou com a participação de profissionais das áreas de psicologia, psicanálise e pesquisa social.

 

 

Durante o encontro, a coordenadora do Núcleo de Apoio Psicopedagógico e Educacional (NAPE), Anamélia Rocha, destacou a importância de ampliar o olhar sobre o comportamento de crianças e adolescentes no ambiente educacional. Segundo ela, alterações de comportamento podem estar relacionadas a situações de sofrimento que nem sempre são percebidas por adultos.

 

 

“Precisamos observar quando o estudante está muito agitado, triste, agressivo e aéreo. Ele está tentando expressar um sofrimento, de experiências dolorosas que ninguém vê”, afirmou a psicóloga.

 

 

Anamélia também ressaltou que dificuldades de aprendizagem, questões psicológicas e comportamentais e outras situações enfrentadas pelos estudantes precisam ser observadas de maneira individualizada. Para ela, o acolhimento dentro e fora da escola pode contribuir para identificar situações que afetam o bem-estar de crianças e adolescentes.

 

 

A psicanalista Tânia Costa, que atua em consultorias para organizações nacionais e internacionais, entre elas a Unesco e o Unicef, chamou atenção para a necessidade de discutir o sofrimento psíquico para além de explicações isoladas. Segundo ela, ansiedade e angústia são influenciadas por diferentes fatores e precisam ser analisadas considerando os contextos social, psicológico, religioso e biológico.

 

 

Para Tânia, a forma como as pessoas convivem também pode contribuir para reduzir ou intensificar situações de sofrimento. Ela citou comportamentos como bullying, racismo, assédio, importunação e críticas excessivas como situações que podem gerar violência e afetar a saúde mental.

 

 

“Uma convivência de paz e harmonia, com ética no cotidiano, evita produzir sofrimento desnecessário. As duras críticas, os assédios, a importunação, bullying e racismo são desnecessários, provocam violência e dor”, afirmou.

 

 

A psicanalista defendeu ainda uma postura de escuta diante de pessoas que demonstram estar passando por momentos de sofrimento. Segundo ela, o acolhimento deve substituir julgamentos e respostas que possam aumentar a sensação de isolamento.

 

 

“Com atenção e cuidado, podemos amenizar o sofrimento do outro, ao invés de causar mais sofrimento desnecessário. Precisam ser respeitadas com suas particularidades”, completou Tânia Costa.

 

 

Juventude e desigualdade

 

 

O professor e pesquisador Nilson Weisheimer, da UFRB, abordou a relação entre saúde mental, juventude e desigualdade social. Líder do Observatório Social da Juventude, ele afirmou que as expectativas colocadas sobre os jovens precisam ser analisadas levando em consideração as diferentes condições econômicas e sociais.

 

 

Segundo o pesquisador, existe uma cobrança para que os jovens estudem, trabalhem, escolham uma profissão e conquistem autonomia. Entretanto, essas possibilidades não estão igualmente disponíveis para todos.

 

 

“Todos os jovens escutam que devem estudar, trabalhar, encontrar uma profissão e conquistar uma autonomia. Ao mesmo tempo, os jovens vivem grandes desigualdades sociais”, explicou.

 

 

Nilson também chamou atenção para os jovens que precisam conciliar os estudos com o trabalho e responsabilidades familiares. Para ele, as desigualdades de acesso a oportunidades podem aumentar a pressão sobre quem não consegue alcançar as expectativas impostas socialmente.

 

 

“A vida não se apresenta da mesma forma para aqueles que não conseguem contar com o apoio financeiro da família e precisam optar entre estar na escola ou garantir auxílio da renda familiar e nas atividades domésticas”, afirmou.

 

 

O pesquisador defendeu que indicadores relacionados à juventude sejam analisados para além dos números, considerando também as condições sociais e as oportunidades disponíveis para cada grupo.

 

 

“Há uma distribuição desigual das condições sociais do trabalho e cobranças difíceis de suportar. O que se espera de mim e o que é importante para o outro pode alienar o sujeito e ser uma pequena chave que desencadeia as condições de sofrimento”, explicou.

 

 

A campanha reforçou, ao longo das discussões, a importância da atenção à saúde mental no cotidiano escolar e comunitário. A proposta foi ampliar o debate sobre os fatores que afetam crianças, adolescentes e jovens e incentivar práticas de escuta, acolhimento e convivência respeitosa.

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