Educação antirracista em Cachoeira: Escuta e construção coletiva do Plano Municipal de Educação Antirracista nas Comunidades

“Numa sociedade racista não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. Evocamos Ângela Davis, ativista norte-americana negra, para reiterar a urgência de construir coletivamente uma educação libertadora, antirracista e emancipatória, no município da Cachoeira. Inclusive, libertar, emancipar e antirracismo têm sido os três pilares que sustentam a ideia de uma Nova Educação, mais humanizada, com equidade e inclusiva, na atual gestão do município. Com este olhar, surgiu a proposta de criar um Plano Municipal de Educação Antirracista (PMEA), que visa priorizar, em toda Rede de Educação de Cachoeira, o protagonismo e a inclusão de estudantes negros/as nos diversos acessos artísticos, culturais e materiais, assim como combater na referida cidade os impactos do racismo estrutural.
Neste intuito, iniciamos em 03 de março do presente ano, um processo de escuta e consulta pública em várias comunidades cachoeiranas, sobre possíveis estratégias e metas que farão parte do PMEA. Este processo, que durou o mês de março inteiro percorreu comunidades rurais, quilombolas e urbanas e coletou sugestões variadas de como combater o racismo nos espaços intra e extraescolares.
Neste momento, permeado por fortes depoimentos de enfrentamento ao racismo, sentiu-se que as dores que atravessam os corpos negros, ainda são latentes e estão fortemente presentes nos espaços escolares. Um desses depoimentos foi tecido em lágrimas por uma mãe e professora da comunidade rural da Murutuba: “Minha filha hoje faz terapia, porque quando era criança na escola puxavam o cabelo dela e a xingavam, por causa do cabelo crespo. Ela já chorou muito e não se aceita até hoje”. São estes e outros relatos que nos motivaram ainda mais para a construção do PMEA.
Surgiram também sugestões diversas, como convidar griots das comunidades para uma interação na sala de aula; construção de vídeo-animação com temática étnico-racial, pesquisas e elaboração de materiais paradidáticos, dentre muitas outras possibilidades, evidenciando que uma educação antirracista não apenas é possível, como também é necessária, principalmente quando tratamos de uma cidade com significativo quantitativo de escolas quilombolas e de população majoritariamente negra.
Os relatos, as sugestões, a empolgação na escuta, a consulta pública e a construção coletiva do Plano de Educação Antirracista comprovaram que uma educação com equidade se faz junto com o povo. E mostraram também que é possível reconstruir o mundo a partir da educação. E assim transformaremos pessoas, para transformar o mundo, reiterando Paulo Freire.

Sandra Liss Sant’Anna
Professora, Poeta e Coordenadora da Educação para a Diversidade
Secretaria Municipal de Cachoeira – Bahia

 

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