Cachoeira reúne ações sobre memória negra, cultura e educação

Programação destacou a Irmandade da Boa Morte, relações Brasil-África e protagonismo de mulheres negras – Foto: Divulgação/ Prefeitura de Cachoeira

 

 

Cachoeira, no Recôncavo Baiano, reuniu entre os dias 13 e 16 uma programação voltada à valorização da memória negra, da educação, da cultura e das relações históricas entre Brasil e África. As atividades incluíram o 2º Encontro de Gestoras Negras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e o Colóquio Internacional – Cultura, Relações Exteriores, Desenvolvimento e Reparação, realizado no contexto das celebrações relacionadas à Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte.

 

 

A programação teve como um dos principais eixos a preservação da história da Irmandade da Boa Morte, manifestação religiosa e cultural com mais de dois séculos de existência. Formada por mulheres negras escravizadas e libertas, a irmandade surgiu em um contexto de luta pela liberdade, pela preservação da fé e pelo direito a um sepultamento digno.

 

 

A tradição combina elementos do catolicismo e de religiões de matriz africana e permanece como uma expressão da ancestralidade negra no Recôncavo. Em 2005, a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

 

 

Além dos rituais religiosos, a programação abordou os vínculos históricos entre Cachoeira e Aného, no Togo, cidade que mantém relações com o município baiano a partir das conexões estabelecidas pelas rotas da diáspora africana. O colóquio reuniu participantes brasileiros e africanos para discutir temas como cultura, identidade, educação, desenvolvimento, cooperação internacional e reparação histórica.

 

 

A agenda também contou com manifestações culturais de estudantes da Escola Otávio Pereira, integrantes do grupo Raízes do Quilombo. Música, dança e samba de roda fizeram parte das atividades, aproximando a comunidade estudantil das tradições culturais do município.

Protagonismo de mulheres negras

 

 

 

No dia 13, a UFRB sediou o 2º Encontro de Gestoras Negras, que reuniu mulheres em posições de liderança acadêmica para discutir representatividade, políticas afirmativas, equidade racial e de gênero e os desafios enfrentados por estudantes negros nas universidades.

 

 

O encontro também debateu a importância da presença de mulheres negras em espaços de decisão e na construção de políticas voltadas à permanência e ao bem-estar da comunidade acadêmica.

 

 

Para Deise Ribeiro, pró-reitora de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis da UFRB, a iniciativa surgiu da necessidade de ampliar a presença de mulheres negras na gestão universitária e criar espaços de troca de experiências.

 

 

“A força dessas mulheres que se conectam e se encontram, para discutir políticas afirmativas, questões de gênero e raça nas universidades públicas, refletindo quais políticas já foram instaladas, discutindo valores institucionais e de gênero, irá gerar encaminhamentos que serão levados para o Ministério da Educação e Cultura – MEC, para o Fórum de Pró-reitores da UFRB e para Associação Nacional de Dirigentes de Instituições Federais, para melhorar o ambiente acadêmico e nos sentimos melhor representadas, trocando um pouco das experiências de cada pessoa aqui representada”, explicou.

 

 

As discussões também destacaram a relação entre educação, racismo estrutural e oportunidades de acesso e permanência no ensino superior. A UFRB foi apresentada durante o encontro como um espaço de ampliação das políticas afirmativas e de acesso de estudantes de grupos historicamente excluídos da universidade.

Memória que permanece

 

 

Ao reunir atividades acadêmicas, manifestações culturais e discussões sobre relações raciais, a programação colocou em evidência a importância da preservação da memória afro-brasileira em Cachoeira.

 

 

A história da Boa Morte, nesse contexto, ultrapassa a dimensão religiosa. A trajetória das mulheres que formaram a irmandade representa estratégias de resistência desenvolvidas pela população negra durante o período da escravidão e a continuidade de práticas culturais transmitidas entre gerações.

 

 

O intercâmbio com Aného também reforçou a conexão entre o Recôncavo e o continente africano, especialmente com a região do Golfo do Benim. A proposta de aproximação entre as duas cidades envolve áreas como cultura, educação, agricultura familiar, ciência, tecnologia, turismo e preservação da memória.

 

 

Em conjunto, as atividades realizadas em Cachoeira evidenciaram como educação, cultura e memória podem funcionar como instrumentos de preservação da história e de fortalecimento da identidade negra, aproximando diferentes gerações e estabelecendo conexões entre o patrimônio do Recôncavo Baiano e suas raízes africanas.

 

Veja mais fotos

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *